Pedreiro é preso duas vezes por ter nome igual ao de foragido

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Goiânia – Imagine você ser preso duas vezes por engano, porque não só o seu nome, mas também o do seu pai, a sua data de nascimento e praticamente o nome de sua mãe coincidem com o de um foragido da Justiça. A infeliz coincidência, que parece tirada do roteiro de um filme, atingiu em cheio a vida do pedreiro Valter Ferreira da Silva, de 50 anos, morador de Jaupaci (GO), uma pequena cidade com menos de 3 mil habitantes, a 225 quilômetros de Goiânia, no oeste do estado.

No último dia 28/6, ele deixou a prisão pela segunda vez, após ser levado pela polícia que acreditava convictamente estar prendendo a pessoa certa. Três dias antes, Valter foi surpreendido em casa, por volta das 11h, com a chegada dos policiais da Delegacia Estadual de Capturas (Decap). Ele estava na cozinha tranquilamente fazendo o almoço para a filha, que se preparava para ir trabalhar. Ele tentou esclarecer, pegar uma pasta com documentos, mas não teve direito a nada. Foi preso.

O trauma já vivenciado por ele sete anos antes, e que abalou, à época, não só o psicológico, mas também a rotina de trabalho de Valter, voltou a se repetir. Ele já havia passado pela mesma situação em fevereiro de 2014. Foi preso em casa, alvo de um mandado de prisão que visava a captura de um homônimo, Valter Ferreira da Silva, condenado por roubo na cidade de Zé Doca (MA). Ficou detido por quatro dias até a Justiça revogar a prisão.

As duas situações ocorreram no âmbito de um mesmo processo, que tramita na Justiça maranhense e cujo réu, o Valter foragido, devia cumprir pena em regime semiaberto, mas, até então, não foi localizado pela polícia. Ele nasceu no mesmo dia que o Valter preso injustamente, as mães de ambos têm nomes semelhantes – uma é Irani Ferreira da Silva e outra é Iranir Ferreira da Silva – e o nome dos respectivos pais é igual: Valdir Barbosa da Silva.

Traumatizado

Já em casa, novamente abalado e traumatizado com o que viveu pela segunda vez, o pedreiro disse, aos prantos, ao Metrópoles, que está até tomando remédios para tentar dormir, mas nem eles surtem efeito. A cabeça, segundo Valter, está toda revirada, assim como ocorreu em 2014, quando ele demorou meses para se recuperar e conseguir retomar a normalidade da vida.

“Estou tomando remédio e com medo de virar depressão. É um trem que aconteceu duas vezes. Sou um cara trabalhador. Nunca fiz nada. Sou viúvo. Na época [que a esposa morreu], fiquei com duas filhas pequenas para criar, uma com 3 anos e outra com 4 anos. Foi Deus quem deu força para eu trabalhar e cuidar delas. Nunca foi preciso eu fazer nada de errado”, diz ele.

A esposa de Valter morreu há 20 anos. Hoje, além das duas filhas, uma com 23 e outra com 24 anos, ele tem um terceiro filho, de 16 anos. A família toda ficou abalada com a maneira como o pai foi preso e levado de casa. Em 2014, a cidade se mobilizou e até um abaixo-assinado foi feito para que a prisão dele fosse revogada. Mais de 900 pessoas assinaram o documento.

O mandado de prisão

O Metrópoles fez a busca pelo nome Valter Ferreira da Silva no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP). A pesquisa apresenta quatro resultados, e um deles é o tal Valter, cujos dados são semelhantes ao do que foi preso por engano, em Goiás. O mandado de prisão preventiva está em aberto desde abril de 2018 e foi expedido pelo juiz Marcelo Moraes Rego de Souza, da 1ª Vara da Comarca de Zé Doca (MA).

Desta vez, o advogado Isley Ferreira Vilas Boas auxiliou Valter no processo de solicitação da liberdade. Para fundamentar o pedido, feito junto ao juiz do Maranhão, ele levantou as informações sobre o foragido, como dados de CPF, RG e até uma foto que mostra bem a diferença física entre os dois, e confrontou com os dados do Valter que foi preso. “Tem uma certidão da escrivania, explicando que não se trata da mesma pessoa”, conta.

O documento, expedido um dia depois da última prisão do pedreiro, em Jaupaci, serviu de base para a decisão do juiz, que revogou a prisão no último dia 27/6. Ele determinou, ainda, que a Secretaria Judicial busque nos sistemas disponíveis maiores informações sobre o foragido, com o intuito de complementar as que estão disponíveis no mandado de prisão e evitar que que uma detenção por engano ocorra novamente.

“No mandado de prisão, consta que o endereço do foragido é de Parauapebas (PA) e o do Valter é de Jaupaci, onde ele nasceu e viveu a vida toda, até então. Faltou esse cuidado, essa observação”, expõe o advogado Isley.

“Estou com medo de ficar sem trabalho”

Desde que voltou para casa da prisão, Valter convive com o receio de enfrentar consequências no trabalho. “Tenho filhos para criar, conta vencida para pagar”, afirma. Ele diz que ainda não voltou a trabalhar e está com medo de a situação prejudicá-lo. Em 2014, demoraram alguns meses até o pessoal voltar a procurá-lo para trabalhar em obras. “Estava tudo ajeitado já e aí veio isso de novo. Isso acaba com a moral da gente na cidade”, lamenta.

A preocupação e o medo do que está por vir atormentam o pedreiro. Quando a esposa faleceu, há 20 anos, acometida por diabetes agudas, ele desenvolveu quadro de depressão e precisou unir forças para conseguir cuidar, criar e manter as duas filhas pequenas. “Passava até fome, mas nunca foi preciso roubar nada de ninguém”, enfatiza Valter, que diz estar, ainda, em estado de choque, diante do que voltou a acontecer.

“Na segunda-feira (28/6), quando me soltaram (da prisão), saí lá fora, não tinha nenhum parente me esperando, não vi ninguém e saí andando pela cidade até achar a saída. Perguntei a um rapaz onde tinha um ponto de mototáxi, encontrei, peguei um motoboy lá e ele me trouxe até em casa. Quando cheguei, minha filha ficou assustada de me ver chegando sozinho. Eu estava avariado da cabeça”, relata.

Na primeira vez que foi detido, Valter ficou na unidade prisional de Israelândia (GO), distante 15 km de Jaupaci. Desta vez, ele foi levado para o presídio da cidade de Iporá, a 45 km da cidade do pedreiro. No primeiro dia, eram ele e mais um na cela. No último, já eram seis pessoas no total. O pedreiro planeja entrar com ação de indenização pelos danos que sofreu. “Foi muita humilhação”, diz.

Fonte: Metrópoles

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