Atenção à saúde, papais: homens morrem sete anos mais cedo que mulheres

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Os homens brasileiros vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas reflete um fato universal. Reflexo de uma cultura machista, o homem em geral não foi educado para cuidar da própria saúde e por isso, ironicamente, se torna mais vulnerável a várias doenças que poderiam ser prevenidas. Segundo o Ministério da Saúde, quase um terço dos homens não procuram auxílio na prevenção de doenças e na melhoria da qualidade de vida. Já é hora de reavaliar posturas para viver melhor.

O preconceito e diversas barreiras culturais ainda mantêm os homens longe dos consultórios, e os impede de criar uma rotina de avaliações médicas preventivas. É fato que a maior parte dos homens só vai ao médico quando os sintomas de alguma doença se tornam evidentes ou dolorosos, muitas vezes em quadros de gravidade avançados. Daí vêm os problemas sérios com acidentes vasculares cerebrais, infartos, câncer, e doenças do aparelho digestivo – algumas das mais recorrentes entre o sexo masculino.

O urologista Maryo Kemps é taxativo: o homem deveria se habituar a ter o acompanhamento de um urologista desde criança. “Nós fomos criados como super heróis que não podem chorar, adoecer e demonstrar fraqueza. Nossos pais diziam que nossas mães iam ao médico só para ‘procurar doença’. No entanto, em qualquer lugar do mundo, a média de vida de um homem é inferior a de uma mulher”, analisa. Ir ao médico, portanto, não é algo que se faz apenas por ocasião.

Quebrando o tabu

O segmento de Maryo atua na prevenção de algumas doenças que são específicas dos homens, como os cânceres de próstata, pênis e testículos. No caso do câncer de pênis, por exemplo, muito associado à higiene do órgão, é algo que se previne quando o homem é educado desde criança. “A fimose, se não for operada cedo, também está ligada a esse tipo de câncer. São assuntos que muitos pais têm vergonha de falar com o filho, mas que o urologista sabe abordar com ele”, diz.

O câncer de próstata, o maior vilão da saúde masculina, é outra doença que dificulta seu tratamento por mera questão de preconceito e machismo. “Existe um tabu muito grande, principalmente no homem de meia idade, quanto ao exame de toque retal. Eu digo brincando que é um exame rápido, indolor, e que não ‘vicia’, então os homens não precisam ter receio de nada”, diz.

“Há mais homens com câncer de próstata do que mulheres com câncer de mama”, ressalta o médico, para exemplificar como a incidência da doença é alta entre eles. É o segundo câncer que mais mata o homem, perdendo apenas para o de pulmão. Em tese, não se pode evitar ter o câncer de próstata, como se evita o de pele ou pulmão, por exemplo.

O fator de risco é o hereditário, tendo alguém com histórico familiar, ou racial, já que homens negros têm mais propensão a desenvolver esse tipo de câncer. A idade recomendada para se ir ao médico é a partir dos 45/50 anos. A melhor prevenção é o diagnostico precoce do câncer de próstata. Se for precoce, a taxa de sucesso de cura chega a 90 e 95%. Mas, quando o diagnostico é tardio, é feito apenas um tratamento paliativo.

O câncer de testículo atinge apenas 5% dos homens, mas seu diagnóstico depende de um constante autoexame. “É comum ser a companheira (ou companheiro) do homem a notar que tem algo errado no local, um nódulo que não estava ali antes”, diz. Há uma grande incidência em homens de idade produtiva, dos 15 aos 50 anos. O câncer de pênis atinge apenas 2% dos homens, sendo a maioria de casos no Nordeste.

Haja coração

O cardiologista Gustavo Torres sabe por experiência própria que a maior incidência de doenças cardiovasculares ainda é sobre os homens. “Os homens sempre estiveram historicamente expostos a maior quantidade de fatores de risco que as mulheres, como tabagismo, etilismo, e alimentação inadequada”, diz. Curiosamente, ele ressalta, essa diferença vem caindo ao longo do tempo, na medida em que as mulheres vão adquirindo os mesmos hábitos e estilos de vida.

As doenças cerebrovasculares costumam ser as mais fatais para eles, devido a associação com fatores de risco como hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, e sedentarismo. Gustavo ressalta que os desconfortos torácicos e as alterações do ritmo cardíaco são os sintomas dos quais os homens mais se queixam no consultório. “Os homens tendem a ser mais resistentes a procurar assistência médica, que deve ser feita de rotina independente de sintomas”, diz o especialista.

Para cuidar bem do coração, o médico recomenda um acompanhamento regular a partir dos 35 anos de idade – e se tem histórico familiar com parente de primeiro grau, deve ser antecipado. Um coração mais seguro observa o controle dos fatores de risco, como pressão arterial adequada, controle de glicemia, colesterol mantido em níveis normais, controle de peso, não fumar, evitar o consumo de bebidas alcoólicas, e atenuar os impactos do estresse.

Novas rotinas

O advogado Thiago Galvão sentiu que precisava se cuidar quando estava 30 kg acima do peso. “O exame de triglicerídeos deu alto, e eu já estava vendo ‘estrelinhas’ com qualquer movimento. Se continuasse daquele jeito entraria logo no grupo de risco pra ter um infarto, AVC ou trombose. Estava com 33 anos, não queria dar chance pra morrer tão cedo”, conta. Hoje, aos 41, ele tem uma rotina bem diferente, e está concluindo o curso de educação física.

Thiago, na verdade, voltou ao que gostava de fazer. “Eu já praticava jiu jitsu desde os 11 anos de idade, tinha um bom condicionamento. Mas os estudos e o trabalho me fizeram dar um tempo disso, e fiquei longe dos cuidados que costumava ter. Não foi legal”, conta. Agora ele voltou a se exercitar e aderiu ao crossfit. Treina pelo menos uma hora por dia, diariamente, além de cumprir seu estágio de educador físico. Faz check-ups atuais, como manda o figurino, e também trouxe a esposa e os filhos para os treinos.

O jornalista Anderson Barbosa, 44 anos, tinha saído de casa pra jogar bola com os amigos num sábado, como faz mensalmente, e teve um infarto agudo do miocárdio. Ele só lembra de ter acordado 13 dias depois na cama do hospital. O infarto foi causado pela má formação numa artéria do coração, nascida com Anderson. Apesar de o ataque cardíaco não ter ocorrido por algo que Anderson tenha feito, mudou completamente sua rotina.

“Eu tive sorte, porque consegui me recuperar e não precisei de cirurgia, mas tive que aprender a me cuidar bem melhor”, diz. Além do medicamento que está tomando, Anderson acrescentou na sua rotina atividades físicas mais leves e orientadas, e uma alimentação melhor, com as devidas restrições.

Pelo menos pelos próximos seis meses, nada de comida gordurosa ou muito salgada. Anderson conta que já havia parado de fumar há seis anos, e nunca foi de freqüentar academias; no máximo, a peladinha com os amigos no fim de semana. As visitas ao médico, ele admite, eram só ocasionais. “Agora, vai ter que ser de 15 em 15 dias pelos próximos meses”, diz, um tipo de acompanhamento médico que ele deverá incorporar normalmente em seu dia a dia, futuramente.

Fonte: Tribuna do Norte

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