Como ‘mentor’ dos ataques do 11 de Setembro escapou por 8 anos do FBI

Ouvir Áudio

Foto: Getty Images/pôster de procurado de 2001

O homem acusado de arquitetar a conspiração com aviões de passageiros sequestrados atingindo locais icônicos dos Estados Unidos há 20 anos está preso aguardando julgamento. Uma pergunta que ainda não foi respondida é: ele poderia ter sido detido antes dos ataques?

“Ele era meu cara.”

Frank Pellegrino estava sentado em um quarto de hotel na Malásia quando viu as imagens na televisão dos aviões colidindo com as Torres Gêmeas. A primeira coisa que ele pensou foi: “Meu Deus, deve ser Khalid Sheikh Mohammed”.

O alvo e as ambições fechavam com o que Pellegrino sabia de Mohammed — e só ele poderia saber isso.

O ex-agente especial do FBI passou três décadas no rastro de Mohammed. Mesmo assim, o suposto mentor do 11 de Setembro ainda não foi julgado.

Um advogado de Mohammed disse à BBC que pode levar mais 20 anos até que o caso seja concluído.

Osama Bin Laden, na época líder da Al-Qaeda, é geralmente o homem mais associado aos ataques de 11 de setembro. Mas a realidade é que Mohammed, ou “KSM” como ficou conhecido, foi o “arquiteto principal”, de acordo com a Comissão do 11 de Setembro que investigou os ataques. Ele foi o homem que teve a ideia e a levou à Al-Qaeda.

Nascido no Kuwait, ele estudou nos EUA antes de lutar no Afeganistão na década de 1980. Anos antes do ataque de 11 de setembro, o agente do FBI Frank Pellegrino estava no rastro do jihadista.

Pellegrino havia sido designado pelo FBI para investigar o atentado ao World Trade Center em 1993, oito anos antes do 11 de Setembro. Foi nessa ocasião que o nome de Mohammed chamou a atenção das autoridades dos EUA, porque ele havia feito uma transferência de dinheiro para um dos envolvidos.

O agente do FBI logo percebeu o tamanho da ambição de Mohammed em 1995, quando KSM foi ligado a uma conspiração para explodir vários aviões internacionais sobre o Pacífico. Em meados da década de 1990, Pellegrino esteve perto de prendê-lo, tendo o localizado no Catar.

Ele e uma equipe foram para Omã, de onde planejavam cruzar para o Catar e prender Mohammed. Um avião estava pronto para trazer o suspeito de volta. Mas houve resistência por parte dos diplomatas americanos no local.

Pellegrino foi ao Catar e disse ao embaixador e a outros funcionários da embaixada que tinha uma acusação formal contra Mohammed por conspiração envolvendo aviões. Mas ele diz que os diplomatas não queriam causar problemas no país.

“Acho que eles pensaram que talvez isso fosse trazer incômodos para eles”, lembra Pellegrino.

Por fim, o embaixador informou a Pellegrino que as autoridades do Catar alegaram ter perdido Mohammed. “Havia angústia, raiva e frustração”, diz ele. “Sabíamos que era uma oportunidade perdida.”

Mas ele reconhece que já em meados dos anos 90 Mohammed não era mais visto como um alvo de alta prioridade. Pellegrino não conseguiu sequer listá-lo na lista dos dez criminosos mais procurados dos EUA. “Me disseram que já havia muitos terroristas lá dentro.”

Mohammed parece ter sido avisado sobre o interesse dos EUA e fugiu do Catar para o Afeganistão.

Mais suspeitas

Nos anos seguintes, o nome de KSM continuou aparecendo, muitas vezes em listas telefônicas de suspeitos de terrorismo presos em todo o mundo, deixando claro que ele estava bem conectado. Foi durante esses anos que ele foi a Bin Laden com a ideia de treinar pilotos para jogar aviões contra edifícios nos EUA.

E então o 11 de Setembro aconteceu. As suspeitas de Pellegrino sobre o papel de KSM foram comprovadas quando uma figura-chave da Al-Qaeda sob custódia o identificou. “Todo mundo percebeu que foi o cara de Frank que cometeu [o atentado]”, lembra Pellegrino. “Quando descobriram que ele era o cara, não havia ninguém mais arrasado do que eu.”

Em 2003, Mohammed foi localizado e preso no Paquistão. Pellegrino esperava que ele fosse julgado como consequência de seu trabalho ao longo dos anos. Mas Mohammed “desapareceu”. A CIA o levou a um lugar desconhecido onde “técnicas aprimoradas de interrogatório” foram usadas.

“Quero saber o que ele sabe e quero saber rápido”, disse um alto funcionário da CIA na época.

Mohammed foi submetido a uma técnica chamada waterboarding pelo menos 183 vezes, uma espécie de “quase afogamento”, considerado tortura. Ele foi submetido a reidratação retal, posições de estresse, privação de sono, nudez forçada e ouviu que seus filhos seriam mortos.

Ele confessou várias conspirações durante esse tempo. Mas um relatório do Senado descobriu posteriormente que grande parte da inteligência supostamente produzida havia sido inventada pelo detido.

Depois que detalhes do programa de detenção da CIA foram revelados, “presos de alto valor” como Mohammed foram transferidos para Guantánamo em 2006. O FBI finalmente teve acesso permitido aos presos.

Em janeiro de 2007, Frank Pellegrino ficou cara a cara com o homem que ele havia perseguido por tanto tempo.

Os dois sentaram-se frente a frente um do outro.

“Eu queria que ele soubesse que estive envolvido em indiciá-lo nos anos 90”, diz ele, na esperança de abrir a conversa para extrair informações sobre o 11 de setembro.

O ex-agente do FBI não quis revelar os detalhes do que foi dito, mas admitiu que “ele é um cara muito envolvente com senso de humor, acredite ou não”.

KSM sempre foi visto como “arrogante” em audiências em Guantánamo. Pellegrino diz que Mohammed é uma espécie de “Kardashian”, dado seu desejo por atenção, mas que o preso não demonstra nenhum remorso.

“Eu tenho certeza que ele está contente com o que fez, mas ele gosta desse show todo”, diz ele.

Depois de seis dias de conversa, Mohammed finalmente disse que não aguentava mais. “E foi isso”, lembra Pellegrino.

Tentativas subsequentes de se julgá-lo fracassaram. Um plano para realizar um julgamento em Nova York recebeu oposição do público e de políticos. “Todo mundo gritava ‘Não quero esse cara no meu quintal. Mantenha-o em Guantánamo’”, disse Pellegrino, ele próprio um nova-iorquino.

Em seguida, veio um tribunal militar em Guantánamo. Mas os atrasos nos procedimentos, agravados pela pandemia de covid, que fechou a base, tornaram o processo demorado. Mais audiências ainda estão ocorrendo esta semana, mas o fim do caso parece muito distante.

O advogado de Mohammed acredita que as últimas audiências foram programadas apenas para mostrar à imprensa que algo está acontecendo no 20º aniversário do 11 de Setembro. David Nevin disse à BBC que ainda espera “algo na ordem de 20 anos para uma resolução completa do processo”.

O advogado de defesa está no caso desde o início em 2008. O plano original era começar os julgamentos quase imediatamente. Mas eles ainda não estão nem perto de começar, diz ele, observando que um juiz recém-nomeado é “o oitavo ou nono juiz que tivemos”.

Cada juiz precisa se familiarizar com cerca de 35 mil páginas de transcrições de audiências anteriores e milhares de moções no que Nevin descreve como “o maior julgamento criminal da história dos EUA”.

E também o mais polêmico.

Isso ocorre principalmente porque os cinco réus foram todos mantidos em detenção secreta pela CIA e submetidos a “técnicas avançadas de interrogatório”.

Isso levou a discussões sobre provas contaminadas pelo que aconteceu nos sites secretos da CIA.

Os EUA “organizaram e implementaram um programa claramente definido para torturar esses homens”, disse Nevin. Esses métodos abrem espaço para recursos judiciais contra quaisquer condenações, e isso se arrasta por anos.

Nevin não revelou detalhes de como é representar um dos réus mais notórios do mundo. Ele diz que inicialmente seu cliente estava “profundamente cético” em ser representado por um advogado americano, então houve um longo processo para eles se conhecerem.

Quando Mohammed ficou detido em uma parte ultrassecreta da base naval, os advogados foram colocados em uma van com as janelas fechadas e andaram de carro por 45 minutos apenas para despistá-los, diz ele. Mas agora seu cliente está detido em um local normal.

A equipe jurídica está atenta às sensibilidades das famílias das vítimas do 11 de setembro, que foram levadas de avião para comparecer às audiências do tribunal. Nas reuniões, alguns familiares criticam advogados como Nevin por representarem os réus. Mas outros fazem perguntas sobre como funciona o processo.

“Trabalhamos muito duro para não fazer nada que exacerbe a dor e o sofrimento que eles experimentaram ao longo dos anos”, disse Nevin.

Outra razão pela qual ele acredita que o tribunal se arrastou é porque se trata de um caso de pena de morte e isso aumenta o rigor. “Teria acabado há muito tempo se o governo não estivesse tentando executar esses homens.”

Pellegrino adiou sua aposentadoria do FBI em três anos, na esperança de que o julgamento militar em Guantánamo, no qual ele espera testemunhar, seja concluído. “Teria sido bom ver isso passar enquanto eu ainda tinha o distintivo.”

Mas o veterano agente especial atingiu a idade de aposentadoria e acaba de deixar o bureau.

Depois de cruzar o mundo em busca de pistas sobre Mohammed, ele agora sente uma forte sensação de fracasso, imaginando se capturá-lo na década de 1990 poderia ter evitado o 11 de setembro.

“O nome dele surge na minha cabeça todos os dias e não é um pensamento agradável”, diz ele.

“O tempo ajuda a curar as coisas. Mas é o que é.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *