EX- REITOR GERALDO S. QUEIROZ REPRODUZ EM SEU FACEBOOK IMAGENS LENDÁRIAS DO EX-PADRE ZÉ LUIZ, FOTÓGRAFO RODRIGO E O POETA RENATO CALDAS

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DESVELANDO MEMÓRIAS

Retiro dos arquivos um exemplar do jornal O VALE, presenteado pelo amigo JOSÉ LUIZ DA SILVA já vai perto dos 40 anos. Neste número, de agosto de 1979, chama a atenção uma matéria sobre o poeta assuense RENATO CALDAS – O POETA BOÊMIO, assinada pela escritora MARIA EUGÊNIA MONTENEGRO, vinda das Minas Gerais e que prestou grandes serviços à região do Vale do Açu e ao Rio Grande do Norte.

Partilho com os amigos o achado, desvelando memórias que considero significativas para conhecimento de todos aqueles que se interessam pela cultura popular.Certamente, outros achados virão… embalados nesta rede de comunicação.

RENATO CALDAS – O POETA BOÊMIO

Renato Caldas está para o Assu assim como D. Pedro I está na tela de Pedro Américo, a marcar uma época.

Renato Caldas, como autêntico poeta-boêmio, emoldura de folclore as ruas do Assu.

Seu livro FULÔ DO MATO é folclore. Seus poemas são vivência, gente, costume, sentimento, vida. Seus versos são ricos em imagens as mais belas e do gosto popular, encantando a leigos e eruditos, pela espontaneidade, humor e malícia. Vejamos a abertura do seu livro:

“Sá dona vossa mecê

é a fulô mais cheirosa

a fulô mais prefumosa

qui o meu sertão já botô!

Podem fazê um cardume

de tudo qui fô prefume

de tudo qui fô fulô

qui nem um, nem uma só

Tem o cheiro do suó

qui seu corpinho suô.

Tem cheiro de madrugada,

fartura de areia muiada

qui uruvaio inxambriô.

É cheiro bom, deferente,

qui a gente sintindo, sente

de outra coisa o fedô”.

É figura imprescindível nas reuniões sociais, com seus repentes e graça matuta, conhecido em todo o Brasil. Amigo de Sílvio Caldas, Noel Rosa e dos grandes artistas da velha guarda. Muitas vezes fez versos para grandes músicos, não dando valor ao dinheiro, ficando assim na obscuridade. Longe da terra, não podia esquecer o Assu, voltando mais rico em vivências, em rimas, em humor.

Certa vez, estando há longo tempo no Rio de Janeiro, sua esposa enciumada, sentindo a falta do marido boêmio, passou-lhe, de Assu, o telegrama: “Renato, se estiveres na Casa de Noca lembra-te que ainda existo”. Recebeu a resposta: “Renato segue dia 20. Abraços. Noca”.

Passando pelas ruas do Assu, Renato Caldas faz folclore, no andar compassado, no trajar simples de sertanejo, a fumar o seu imprescindível cigarro de palha ou cachimbo, que nunca trocou pelos modernos Minister ou Hollywood.

Senta-se à calçada dos amigos, sempre com repertório novo de irreverentes anedotas e dá um show de humorismo. Gosta de umas e outras, fase em que entra num período perigoso de malícia, com muita pimenta nos casos que conta, nos versos que diz.

É um grande repentista. Certa vez foi a um baile “dançar umas valsas”, na expressão popular. Animado, alto, abraçava efusivamente a dama, apertando-a cada vez mais, a ponto da jovem reclamar: “Olha, seu Renato, eu sou uma moça”. Malicioso, respondeu: “Porque quer”.

De uma de suas idas a Natal levava, certa vez, umas nambus e avoetes, já torradinhas e cheirosas, para comer, quando chegasse numa pensão à margem da estrada, sua pensão preferida. Ali chegando, pediu a copeira – a Chiquinha – que lhe trouxesse arroz, farinha, pratos e talheres. Depois de saborear o gostoso petisco, fechou a lata que trazia as avoetes e seguiu viagem. Ao chegar em Natal, viu que, no meio da farofa, ficara uma colher. De volta ao Assu, passando pela pensão, cheio de mesuras, entrega a Chiquinha um bilhete, que dizia:

Estou de volta, Chiquinha

Pra trazer sua colher

De coisa que não é minha

Eu só aceito mulher.

É também grande trovador.

Apreciando a trova do poeta Falcão, da Paraíba, como autêntico boêmio, fez o plágio. São elas respectivamente:

a trova de Américo Falcão:

Não há tristeza no mundo

que se compare à tristeza

do olhar do moribundo

fitando uma vela acesa.

o plágio de Renato Caldas:

Não há tristeza no mundo

que se compare à agonia

do olhar do vagabundo

vendo a garrafa vazia.

Maria Eugênia Montenegro.

O VALE.

Agosto/1979.

Com Francisca Bezerra, Amora Abreu, Fernando Montenegro, Walter Medeiros, Wellington Medeiros, Iris Costa, Salesia Dantas, Leide Camara, Franklin Jorge, Aluisio Lacerda, Aluisio Garcia De Castro Castro, Carlos Peixoto Peixoto, Ione Salem, José Marival Martins, Maria Elizabeth Montenegro.

Adendo do Blog:

Temos o imenso prazer de ter coletado material para o Jornal – O Vale – sob a batuta jornalistica do brilhante José Luiz Silva, num contrato de trabalho patrocinado pela Hidroservice comandada pelo engenheiro Niênio Trigueiro no período da construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves.

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