O Rio Grande do Norte começa a viver uma nova fase de sua economia mineral. Se durante décadas a produção de sal, xelita e rochas ornamentais sustentou a presença do setor no comércio exterior, a entrada em operação da Mina Borborema, em Currais Novos, colocou o ouro no centro da pauta exportadora potiguar.
No primeiro semestre de 2026, o estado vendeu US$ 157,5 milhões em ouro ao exterior, valor que correspondeu a 24,6% de todas as exportações potiguares no período. O resultado levou o RN à sexta posição entre os estados brasileiros que mais exportaram o metal.
O avanço ocorre em paralelo à valorização do tungstênio. Entre janeiro e junho de 2026, as exportações potiguares do mineral chegaram a US$ 6,8 milhões, alta de 356% em relação aos US$ 1,5 milhão registrados no mesmo período de 2025. O crescimento, porém, não foi provocado principalmente pelo aumento da quantidade embarcada, mas pela disparada do preço internacional. O valor médio por kg passou de US$ 19,22 para US$ 76,98.
Enquanto isso, o sal marinho permanece como um dos principais produtos minerais do estado em volume exportado. Em 2025, foram embarcados 894,3 milhões de kg de sal marinho a granel, mas o valor financeiro foi de US$ 18,4 milhões. A diferença entre quantidade e receita ajuda a explicar uma das características históricas da mineração potiguar: produtos de grande escala física nem sempre correspondem aos maiores valores em dólares.

Ouro muda o peso da mineração potiguar
A principal transformação recente está em Currais Novos, no Seridó. A operação da Mina Borborema, da Aura Minerals, alterou rapidamente a participação do setor mineral na balança comercial do estado. Entre 2020 e 2024, o RN havia exportado pouco mais de US$ 5,5 milhões em ouro. Somente nos seis primeiros meses de 2026, foram US$ 157,5 milhões.
O salto também aparece quando se observa o volume físico. Em cinco anos, de 2020 a 2024, o estado exportou pouco mais de 99 kg de ouro. Nos 18 meses seguintes, considerando 2025 e o primeiro semestre de 2026, o volume ultrapassou três toneladas. Em 2025, primeiro ano de funcionamento do empreendimento, as exportações do metal alcançaram US$ 248,7 milhões, segundo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RN).

A mudança também reposicionou o RN no cenário nacional. Com US$ 157,5 milhões exportados entre janeiro e junho de 2026, o estado respondeu por 3,4% das vendas brasileiras de ouro atribuídas às unidades da Federação e ficou atrás de grandes produtores como Minas Gerais e Bahia.
| Indicador do ouro no RN | Resultado |
|---|---|
| Exportações no 1º semestre de 2026 | US$ 157,5 milhões |
| Participação na pauta exportadora do RN | 24,6% |
| Posição no ranking nacional | 6º maior exportador |
| Participação nas exportações brasileiras de ouro | 3,4% |
| Exportações de ouro em 2025 | US$ 248,7 milhões |
| Exportações de 2020 a 2024 | US$ 5,5 milhões |
| Volume exportado em 2020-2024 | pouco mais de 99 kg |
| Volume exportado nos 18 meses seguintes | mais de 3 toneladas |
Canadá e Suíça concentram o ouro
O destino das vendas também revela uma característica importante da cadeia. Desde 2025, o Canadá recebeu US$ 204,1 milhões em ouro exportado pelo RN, enquanto a Suíça recebeu US$ 44,6 milhões. Os dois países são centros internacionais de refino, comercialização, armazenamento e negociação do metal.
Isso significa que o país registrado como destino da exportação não necessariamente corresponde ao local onde o ouro será consumido. A mercadoria pode seguir para centros especializados e, posteriormente, entrar em outras cadeias internacionais de refino e comercialização.
A concentração das vendas também coloca o estado diante de um desafio: quanto maior a dependência de poucos compradores, maior a exposição a mudanças de preços, demanda internacional, logística e regras de comercialização.
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Tungstênio volta a ganhar força
Se o ouro representa a grande novidade da mineração potiguar, o tungstênio é um dos minerais tradicionais que voltou a ganhar importância. Associado historicamente à exploração de xelita no Seridó, o mineral está passando por uma forte valorização internacional.

No primeiro semestre de 2026, o RN exportou US$ 6,8 milhões em tungstênio, contra US$ 1,5 milhão no mesmo período de 2025. A alta chegou a 356%.
O dado mais importante, entretanto, está no preço. O estado embarcou aproximadamente 88,5 toneladas no primeiro semestre de 2026. Em todo o ano de 2025, foram 193 toneladas. Mesmo com um volume menor no período, a receita cresceu porque o preço médio por kg praticamente quadruplicou, passando de US$ 19,22 para US$ 76,98.
| Tungstênio | 1º semestre de 2025 | 1º semestre de 2026 |
| Valor exportado | US$ 1,5 milhão | US$ 6,8 milhões |
| Volume | parte dos 193 t exportados no ano | 88,5 toneladas |
| Preço médio por kg | US$ 19,22 | US$ 76,98 |
| Variação do valor | — | +356% |
A produção está concentrada principalmente em Currais Novos e na região do Seridó, área tradicional da exploração de xelita, minério utilizado para a obtenção do tungstênio.
O desempenho já tem reflexo na arrecadação mineral. Entre janeiro e julho de 2026, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) proveniente do tungstênio chegou a aproximadamente R$ 1,5 milhão, colocando o mineral na segunda posição entre os recursos que mais geram essa compensação no estado, atrás apenas do ouro.
Sal: toneladas embarcadas, mas baixo valor agregado
Antes da explosão do ouro, o sal marinho era um dos grandes símbolos da mineração potiguar. A atividade permanece importante, especialmente pela quantidade movimentada.
Em 2025, o estado exportou 894,3 milhões de kg de sal marinho a granel, sem agregados. O valor, entretanto, ficou em US$ 18,4 milhões. O preço médio foi de aproximadamente US$ 0,21 por kg.
A série recente mostra uma retração. Em 2023, foram exportados aproximadamente 1,1 bilhão de kg, com receita de US$ 25,1 milhões. Em 2025, o volume caiu para 894,3 milhões de kg e o valor para US$ 18,4 milhões.
| Sal marinho | 2023 | 2025 |
| Volume exportado | cerca de 1,1 bilhão kg | 894,3 milhões kg |
| Valor exportado | US$ 25,1 milhões | US$ 18,4 milhões |
| Preço médio | aproximadamente US$ 0,23/kg | US$ 0,21/kg |
A diferença entre o volume gigantesco e o valor relativamente baixo é um dos pontos mais importantes para entender a mineração potiguar. O estado possui produtos capazes de gerar grandes quantidades de divisas com poucas toneladas, como o ouro, e outros que precisam movimentar centenas de milhões de kg para alcançar receitas muito menores.
Em 2025, a Nigéria foi o principal destino do sal marinho potiguar, absorvendo 59% das exportações do produto. Os Estados Unidos responderam por 22%.
Granito e rochas ornamentais completam a pauta
Outro segmento mineral com presença no comércio exterior potiguar é o de pedras e rochas ornamentais, especialmente o granito. O produto, porém, apresenta uma escala de exportação muito inferior à do ouro, do sal e do tungstênio.
Entre janeiro e novembro de 2025, o RN exportou US$ 1,1 milhão em granito para países da União Europeia. O desempenho mostra que existe mercado internacional para as rochas produzidas no estado, mas também evidencia o espaço existente para ampliar a participação potiguar nesse segmento.
O granito aparece ainda em registros relacionados à arrecadação mineral. Em Currais Novos, por exemplo, o mineral gerou R$ 34,2 mil em CFEM entre janeiro e abril de 2026, muito abaixo do ouro e do tungstênio.
Além do granito, o estado possui ocorrências e atividades relacionadas a minerais como feldspato, caulim, quartzo, calcário, mica, gemas, quartzito e outros materiais. Nem todos, porém, possuem participação significativa na pauta de exportações.

E o minério de ferro?
O minério de ferro merece um capítulo à parte porque representa mais uma perspectiva de expansão do que uma realidade consolidada nas exportações atuais.
O RN já teve experiências anteriores de exportação do produto, mas a atividade não se consolidou em escala. Agora, um novo projeto pretende estruturar a cadeia envolvendo mina, beneficiamento e logística portuária.
A previsão é que o Porto de Natal passe a receber operações de exportação de minério de ferro a partir do segundo semestre de 2028. O projeto prevê investimentos na estrutura portuária e a movimentação de cargas provenientes de uma operação mineral que pretende recolocar o estado no mapa da exportação de ferro.
A expectativa divulgada para a operação é de aproximadamente 2,2 mil toneladas anuais de minério de ferro a partir de 2029.
| Mineral | Situação atual no comércio exterior | Principal área de destaque |
| Ouro | Forte expansão | Currais Novos |
| Tungstênio | Exportação consolidada e valorização em 2026 | Seridó |
| Sal marinho | Grande volume exportado | Litoral e região salineira |
| Granito | Exportação em menor escala | Interior do estado |
| Minério de ferro | Projeto de expansão, com exportações previstas a partir de 2028 | Interior do RN |
Um estado com potencial além dos produtos já exportados
O potencial mineral do RN não se resume aos produtos que já aparecem com força na balança comercial. Um levantamento sobre oportunidades de exportação para a União Europeia identificou possibilidades para minerais como ferro, caulim e feldspato, além de pedras preciosas e semipreciosas. Também foram apontadas oportunidades para terras raras, molibdênio e quartzo.
A existência de reservas, entretanto, não significa automaticamente que determinado mineral se transforme em produto exportador. Para chegar ao mercado internacional, é necessário combinar pesquisa geológica, licenciamento, investimento, extração, beneficiamento, infraestrutura, logística e compradores.
Esse ponto é especialmente importante para o RN porque a mineração ocorre em áreas diferentes do estado e enfrenta desafios de transporte até os portos. A expansão de uma cadeia mineral depende, portanto, não apenas da existência do recurso no subsolo, mas também da capacidade de transformar a matéria-prima em mercadoria competitiva.
A nova geografia mineral do RN
A mineração potiguar possui uma forte concentração regional. O Seridó, especialmente Currais Novos e municípios vizinhos, concentra atividades ligadas ao ouro e ao tungstênio, enquanto a faixa litorânea mantém a tradicional produção salineira.
Currais Novos tornou-se o principal exemplo dessa transformação. De janeiro a abril de 2026, o município concentrou R$ 6,9 milhões dos R$ 8,3 milhões arrecadados pelo RN em CFEM, equivalente a 83,7% do total estadual no período. Do valor arrecadado pelo município, R$ 6,6 milhões vieram do ouro e R$ 299,8 mil do tungstênio.
O número mostra que a mineração deixou de ser apenas uma atividade produtiva localizada e passou a ter impacto direto sobre as receitas dos municípios produtores.
| Indicador | Resultado |
| CFEM arrecadada pelo RN entre jan. e abr. de 2026 | R$ 8,3 milhões |
| Participação de Currais Novos | 83,7% |
| CFEM de Currais Novos | R$ 6,9 milhões |
| CFEM do ouro no município | R$ 6,6 milhões |
| CFEM do tungstênio | R$ 299,8 mil |
| CFEM do granito | R$ 34,2 mil |
O que os números revelam
A comparação entre os minerais mostra que o RN está passando por uma mudança de perfil dentro da mineração. O sal continua sendo o campeão em quantidade física, mas o ouro assumiu a liderança em geração de valor. O tungstênio, por sua vez, demonstra como as oscilações do mercado internacional podem alterar rapidamente a importância econômica de um mineral.
Ranking dos principais minerais na pauta recente
Considerando os dados disponíveis mais recentes, o cenário pode ser resumido da seguinte forma:
| Posição | Mineral | Principal indicador recente |
| 1º | Ouro | US$ 157,5 milhões no 1º semestre de 2026 |
| 2º | Tungstênio | US$ 6,8 milhões no 1º semestre de 2026 |
| 3º | Sal marinho | US$ 18,4 milhões em 2025 |
| 4º | Granito | US$ 1,1 milhão para a União Europeia até nov. de 2025 |
| 5º | Minério de ferro | Exportação em fase de preparação para 2028 |
A ordem da tabela deve ser lida com cuidado porque os períodos não são idênticos e cada mineral possui uma dinâmica diferente. O sal, por exemplo, movimenta uma quantidade física muito maior que o ouro, mas apresenta valor muito menor por kg. Já o ferro ainda não pode ser comparado diretamente aos demais porque a nova operação exportadora está prevista para começar somente em 2028.
Ouro muda também o futuro da mineração
O crescimento do ouro pode não ser apenas um fenômeno temporário. Em agosto de 2026, um acordo relacionado ao traçado da BR-226 abriu caminho para o acesso a reservas adicionais da Mina Borborema. A alteração pode ampliar em 670 mil onças a base de reservas, um aumento de 82%, elevando a estimativa de vida útil do empreendimento de 11,3 anos para 20 anos e cinco meses.
A produção total projetada para o empreendimento chega a aproximadamente 1,5 milhão de onças, equivalente a cerca de 20,8 toneladas de ouro.
Se essas projeções se confirmarem, o impacto sobre a balança comercial poderá se prolongar por duas décadas. O que começou como uma nova operação no Seridó já se transformou em um dos principais motores das exportações do RN.
Com informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Sebrae-RN, Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (Sedec/RN), Agência Nacional de Mineração (ANM) e levantamentos publicados pela imprensa potiguar.
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