Foto: Talyta Vespa/UOL

Cinco anos atrás, o professor de biologia sul-mato-grossense Carlos Alberto Rezende foi diagnosticado com aplasia medular severa, uma doença sanguínea na medula óssea que causa infecções diversas. O diagnóstico veio junto com a informação de que a única possibilidade de recuperação de Carlos era um transplante de medula óssea. Que chegou. Há cinco anos, o professor é transplantado e, nesta São Silvestre, ele correu ao lado de quem lhe salvou a vida: Luiz Eduardo Pereira, o doador.

A possibilidade de encontrar uma medula óssea compatível com a de Carlos era de uma em 100 mil. E, depois de um ano e meio à espera, esse encontro foi possível. O padrão em procedimentos de doação é claro: o doador não sabe quem é o receptor, e vice-versa. No entanto, ao receber o transplante, Carlos ligou para o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea e pediu a quebra de sigilo. “Eu queria conhecer quem salvou minha vida”, disse ao UOL Esporte.

Do outro lado, mais precisamente no Paraná, Luiz Eduardo autorizou que seu contato fosse encaminhado para Carlos. Foi o início de uma amizade que deixou de ser apenas sentimental. “Somos irmãos de sangue”, diz Carlos.

Renascimento

Carlos é conhecido como professor Carlão no Mato Grosso do Sul, onde mora. Ele dava aulas em cursinhos pré-vestibulares, e o carinho que sempre teve com os alunos foi retribuído assim que a notícia da doença se espalhou. “É um diagnóstico duro. E eu, como biólogo, sabia que era quase impossível encontrar um doador compatível. Independentemente disso, no hospital, fui visitado por muita gente; recebi muita doação de sangue. Essa comoção me fez ter esperança”, relembra.

Foi ali, antes mesmo de saber da existência de um doador compatível, que o professor decidiu criar um projeto para conscientizar pessoas sobre a importância da doação de medula óssea e bolsas de sangue, o Projeto Sangue Bom, que, posteriormente, se transformou em um instituto. “Desde moço, sempre fui o único responsável pela minha família. A única coisa que pedia a Deus era que eu não partisse antes de minha mãezinha. Fui à luta, então. Comecei o projeto e, em um ano de atividade, colaboramos com palestras e ações diversas que resultaram em um aumento de 50% no cadastro de doador de medula óssea”, conta Carlos.

Sem saber se encontraria um doador —e, consequentemente, se continuaria vivo—, o sul-mato-grossense decidiu cursar uma nova faculdade: biomedicina. “Depois de um ano e quatro meses do diagnóstico, recebi a notícia de que teria um doador. O Dudu apareceu, e nossa compatibilidade foi de 100%. É uma possibilidade em 100 mil. Já lutando por essa causa, recebi o transplante e todo o procedimento foi feito pelo SUS. Fiquei 120 dias no hospital, já que a medula “nova” precisava se desenvolver”, conta.

Quando soube da doença, Carlos conta, ele estava namorando há um ano. “A situação econômica apertou com tudo isso, e eu falei para a Tatiana, minha namorada, que se ela quisesse ir embora, eu entenderia. Eu sequer sabia se sairia vivo disso tudo, e pesquisas mostram que 90% dos casais na mesma situação se separam. Mas ela não quis. Continuou do meu lado, e veio hoje correr essa maratona comigo e com o Dudu. Ela passou os 120 dias comigo no hospital -mas em 32 deles, precisei ficar isolado para destruir toda a minha medula e colocar uma nova. Esse procedimento envolve, também, uma quimioterapia e uma radioterapia muito intensas”.

Tatiana comprou vários acessórios para que o período de isolamento de Carlos fosse menos solitário. A cada dia, ele publicava fotos e vídeos como um novo personagem, para divertir a todos que torciam por ele.

O esporte e uma nova vida

Durante os 120 dias hospitalizado, Carlos leu algumas reportagens sobre os jogos mundiais de transplantados. Sempre gostei de esporte, mas meu rendimento não era dos melhores, uma vez que fui fumante até o dia em que recebi o diagnóstico. Assim que saí do hospital, comecei a praticar esporte de novo. Fiz dez provas de rua de 5 km e minha primeira São Silvestre, ainda durante o tratamento, e de máscara o tempo todo —porque como minha medula era ‘bebê’, ela ainda não me protegia de doenças comuns. Ainda assim, consegui. O esporte me ajudou a renascer”, relembra.

“Voltei para o esporte como atleta transplantado, me formei em biomedicina e concluí o curso. Hoje, como biomédico, faço parte do grupo que trouxe o transplante de medula óssea para o Mato Grosso do Sul. Hoje, o projeto Sangue Bom é um instituto com reconhecimento nacional e latino-americano pelo volume de ações que realiza em busca de novos doadores de medula óssea.”

Carlos é vice-campeão mundial de transplantados; é campeão nos 100 m do campeonato máster de atletismo, concorrendo com quem não é transplantado. “Tudo isso aos 57 anos, graças a esse menino, ao Dudu, meu irmão”. Os olhos do professor marejam quando fala do amigo, que precisou treinar bastante para dar conta da maratona.

“Ele me trouxe esporte, uma nova profissão e vida. Eu renasci. Durante a pandemia, corria todos os dias em frente à minha casa para me preparar para a São Silvestre. Em toda prática esportiva, faço a divulgação da importância da doação de medula óssea, é esse meu objetivo. E, hoje, com o Dudu aqui, nosso intuito é contar nossa história e incentivar novas pessoas a serem doadoras.”

UOL

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