Coaf revela movimentação de R$ 19,3 milhões feita por cunhado de Vorcaro e familiares para a igreja Lagoinha


Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apontam que pessoas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro movimentaram cerca de R$ 19,3 milhões em transferências para a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte. As informações foram divulgadas pelo g1 nesta segunda-feira (14).
O maior volume foi transferido por Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e ex-pastor da unidade. Segundo os documentos, foram 26 operações que totalizaram R$ 19,2 milhões. Zettel foi preso em março pela Polícia Federal durante as investigações relacionadas ao caso do Banco Master. A unidade da Lagoinha Belvedere foi posteriormente encerrada.
Os documentos do Coaf também registram movimentações feitas por outros nomes ligados ao banqueiro. Fabíola de Almeida Macedo Vorcaro, ex-mulher de Daniel Vorcaro, realizou sete transferências que somaram R$ 101,6 mil. Já Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro, fez quatro operações de R$ 120 mil para a instituição religiosa. Ele está preso sob suspeita de integrar o chamado “núcleo violento” do esquema investigado pela Polícia Federal.
Outro citado nos relatórios é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Segundo o Coaf, ele fez 11 repasses que totalizaram R$ 22 mil. Mourão morreu em março, semanas depois de, segundo a Polícia Federal, tentar tirar a própria vida enquanto estava sob custódia.
Conta da igreja movimentou R$ 57,1 milhões
Ainda de acordo com os relatórios do Coaf, a conta bancária da Lagoinha Belvedere movimentou aproximadamente R$ 57,1 milhões entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. Desse montante, R$ 28,5 milhões correspondem a entradas e R$ 28,6 milhões a saídas.
A movimentação chamou a atenção das instituições financeiras porque, no cadastro do Banco do Brasil, a igreja apresentava faturamento anual presumido de R$ 950 mil. A discrepância entre o faturamento informado e os valores movimentados levou o banco a comunicar as operações ao Coaf.
Fabiano Zettel aparece nos documentos como procurador ou representante da igreja e teria sido responsável por aproximadamente dois terços dos valores que entraram na conta no período analisado.
Os relatórios apontam ainda que parte significativa dos recursos foi destinada a empresas dos setores de construção, engenharia, estruturas metálicas, instalações e produção de eventos.
Empresa ligada a Zettel recebeu quase R$ 10 milhões
O Coaf também identificou movimentações envolvendo a Super Empreendimentos, empresa na qual Zettel aparece como administrador. Segundo o relatório, a companhia recebeu aproximadamente R$ 9,9 milhões em junho de 2022, sendo cerca de R$ 9,2 milhões enviados pelo próprio Zettel.
Quase todos os recursos deixaram a empresa no mesmo mês por meio de boletos e transferências. A instituição financeira responsável pela comunicação ao Coaf apontou que a companhia não apresentava faturamento ou patrimônio cadastrado compatível com o volume movimentado.
A empresa também aparece relacionada a negociações imobiliárias de alto valor. Em uma das operações citadas, um imóvel teria sido negociado por R$ 48 milhões, enquanto seu valor de referência fiscal era de aproximadamente R$ 7 milhões.
Veículos de luxo também aparecem nos documentos
Outra empresa associada a Zettel, a Moriah Asset, aparece em quatro negociações envolvendo veículos de luxo: duas Range Rover, uma Cadillac Escalade e um Audi RS6. Os valores declarados nas operações somam cerca de R$ 4,95 milhões.
De acordo com os documentos, os comunicantes demonstraram dúvidas sobre a origem dos recursos utilizados em uma das transações e sobre a sequência de compra, troca, entrada e devolução de valores.
O Coaf ressalta que a comunicação de operações financeiras consideradas atípicas não significa, por si só, comprovação de crime. Cabe às autoridades responsáveis pela investigação analisar a origem dos recursos e verificar as justificativas para as movimentações.
Outros valores sob investigação
Documentos anteriores enviados ao Coaf já haviam apontado outras movimentações relacionadas a Fabiano Zettel. Entre junho de 2021 e janeiro de 2022, ele teria movimentado R$ 99,4 milhões em uma conta pessoal, valor considerado incompatível com a renda declarada pelo banco e que poderia indicar trânsito de recursos pertencentes a terceiros.
Em outro levantamento, o Coaf apontou que Zettel declarou ter recebido R$ 190,2 milhões em lucros e dividendos do Fundo Kairós entre 2023 e 2024. O fundo, administrado pela Reag, tinha como principal investimento a Super Empreendimentos e também é alvo de investigação da Polícia Federal.
Ainda segundo os dados divulgados, o patrimônio declarado por Zettel passou de R$ 67 milhões para R$ 204 milhões entre 2021 e 2024.
O que diz a Igreja Batista da Lagoinha
Em nota, a Igreja Batista da Lagoinha afirmou que cada unidade possui autonomia administrativa, jurídica e financeira para gerir receitas, despesas, investimentos e obras. Segundo a instituição, essa responsabilidade cabia, na época, à presidência local da Lagoinha Belvedere, exercida por Fabiano Zettel.
A Lagoinha Global declarou que recebeu da liderança local a informação de que os recursos seriam utilizados em reformas e melhorias nas instalações da igreja. A instituição afirmou, porém, que não tinha conhecimento dos valores movimentados, cuja dimensão só teria sido conhecida após as investigações.
A igreja também informou que os recursos mencionados nos documentos não seriam provenientes de dízimos, ofertas ou doações, mas de valores captados por Zettel para realização das obras.
Segundo a nota, Zettel foi afastado das funções pastorais em novembro de 2025, após surgirem as primeiras informações públicas relacionadas ao caso Banco Master. As atividades da Lagoinha Belvedere foram encerradas em 15 de março de 2026.
A instituição afirmou ainda repudiar qualquer prática ilícita e defendeu a apuração rigorosa dos fatos pelas autoridades competentes.
A defesa de Fabiano Zettel informou à TV Globo que não iria se manifestar. O g1 informou que tenta contato com os demais citados na reportagem.
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