Nordeste terá fábrica inédita de curativos produzidos com pele de tilápia

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O município de Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, no Ceará, deverá receber a primeira fábrica brasileira dedicada à produção em escala industrial de curativos biológicos feitos com pele de tilápia. O empreendimento é desenvolvido pelo Governo do Ceará em parceria com a BIOTEC Medical Xenograft Engineering e tem previsão de concluir as etapas necessárias para instalação em até 15 meses.

A unidade produzirá curativos a partir de pele de tilápia liofilizada, submetida a processos de desidratação, esterilização por radiação gama e embalagem a vácuo. O método permite que o material seja armazenado em temperatura ambiente. Antes da utilização em pacientes, o produto é reidratado com soro fisiológico.

A escolha de Jaguaribara está ligada à força da produção de tilápia no município. Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico do Ceará, Fábio Feijó, a fábrica deverá gerar mais de 200 empregos no primeiro ano de funcionamento e aproximadamente 300 no segundo.

É a número um do Ceará e a 14° do Brasil. E geograficamente ela também é interessante porque está a 130 quilômetros do segundo colocado, que é a cidade de Orós. Isso já aguçou o interesse do investidor. Outro aspecto foi o impacto social e econômico que esse empreendimento poderia dar para a cidade de Jaguaribara. A produção de tilápia é a principal fonte econômica de lá”, explica Feijó.

Fábrica ainda depende de aprovação

A implantação da unidade ainda precisa passar por etapas regulatórias, entre elas a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além da aquisição dos equipamentos necessários para a produção.

Conforme o cronograma apresentado pelo investidor ao governo estadual, a expectativa é concluir o processo de licenciamento em até 15 meses. Somente após o cumprimento dessas etapas a fábrica poderá iniciar as atividades em escala industrial.

O cronograma do investidor é que, em 15 meses, ele esteja totalmente apto e pronto no seu licenciamento da Anvisa para o início da produção. A gente harmonizou o cronograma dele para fechar a última peça que faltava para ele, que era a gente prover todos os incentivos para a fábrica se instalar em Jaguaribara”, ressaltou.

A expectativa do Governo do Ceará é que cerca de metade da produção seja destinada ao mercado internacional. Entre os possíveis destinos estão países da Europa, das Américas e da Ásia, com Portugal e México citados entre os interessados no produto.

Tecnologia nasceu de pesquisa no Ceará

A tecnologia começou a ser desenvolvida em 2015 pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará (UFC), com participação de pesquisadores do Ceará, Pernambuco e Goiás. Os estudos deram origem a aplicações médicas da pele de tilápia, principalmente no tratamento de queimaduras.

Segundo a UFC, o curativo pode reduzir a necessidade de trocas frequentes, diminuir a exposição dos pacientes a infecções, encurtar o período de internação e reduzir o consumo de insumos médicos.

O pesquisador Manoel Odorico de Moraes Filho, um dos coordenadores dos estudos realizados no Ceará, considera que a tecnologia pode oferecer uma alternativa terapêutica de menor custo.

Você vai ter uma outra opção terapêutica para queimaduras e uma opção terapêutica mais barata, que vai diminuir os custos do Sistema Único de Saúde. E além do mais você vai ter um produto que acelera a cicatrização, diminui a dor, evita infecção e diminui consideravelmente os custos também. A importância disso é realmente fabulosa não só para o Sistema Único de Saúde, mas principalmente para a sociedade de uma forma geral.”

Pele de tilápia já foi usada em outros tratamentos

Os estudos também levaram à utilização da pele de tilápia em procedimentos de reconstrução vaginal. A técnica foi aplicada em pacientes com síndrome de Rokitansky, agenesia vaginal e câncer pélvico.

O material também foi utilizado em um procedimento de reconstrução vaginal realizado em Campinas, em São Paulo, para uma mulher transexual. As aplicações ampliaram o campo de pesquisa da tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores cearenses.

Em 2017, pesquisadores da UFC inauguraram o primeiro banco de pele de tilápia destinado a tratamentos médicos. A iniciativa marcou outro avanço no desenvolvimento do material para utilização na área da saúde.

Ceará aposta na expansão da bioindústria

A instalação da fábrica faz parte de uma estratégia do Governo do Ceará para ampliar a atuação estadual nos setores de biotecnologia e bioengenharia. O projeto reúne instituições de pesquisa, saúde e desenvolvimento econômico, além da empresa responsável pelo empreendimento.

Segundo Fábio Feijó, o Estado também mantém discussões com o Governo Federal e o Ministério da Aeronáutica para a criação de um curso de bioengenharia na unidade cearense do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Como a gente agora está entrando no cenário de bioindústria e, efetivamente, lançamos uma estratégia de atração e desenvolvimento em bioengenharia, estamos agora em discussões com o Governo Federal e o Ministério da Aeronáutica para ter um terceiro curso no ITA de bioengenharia”, revelou.

O projeto da fábrica envolve a Universidade Federal do Ceará, por meio do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos, o Instituto Doutor José Frota (IJF), o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará, a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) e a BIOTEC Medical Xenograft Engineering.

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